sexta-feira, 13 de abril de 2012

Semelhança física leva pai a encontrar filho biológico

Caue Fonseca

caue.fonseca@zerohora.com.br

Estava na cara. Mais especificamente nas orelhas, no queixo um pouco pontiagudo e na testa alta e precocemente calva.

Ao deparar, em 2006, com uma foto de Alberto Kopittke na companhia do presidente Lula, o médico ortopedista Abraão Winogron percebeu a espantosa semelhança do rapaz consigo mesmo, e concluiu que tinha um filho.

Passados seis anos, três desembargadores do Tribunal de Justiça levantaram-se na quinta-feira à tarde para cumprimentar pai e filho. Eles decidiram que Alberto tem o direito de usar o Winogron do pai biológico em seu sobrenome sem suprimir o Kopitkke do seu pai de criação, falecido há 15 anos. Resumindo, a Justiça concedeu-lhe o direito de ter um segundo pai.

Hoje, os dois inflam o peito para contar a história inusitada que começou com o reconhecimento por foto de 2006

Alberto, à época, era advogado e assessor do então ministro Tarso Genro. Hoje com 30 anos, ele foi ainda secretário de Segurança de Canoas e trabalha atualmente como diretor executivo do Consórcio Metropolitano, órgão que atua em prol das 11 prefeituras da região. Winogron, 66 anos, além de médico, trabalha como jornalista em rádio e TV.

Enquanto o filho trabalhava com Tarso em Brasília, Winogron tratou de confirmar sua suspeita. Lembrou que a irmã de Alberto fora sua paciente quando adolescente. Surpreendeu-se com o que ouviu ao telefone:

— Quando eu liguei, disse quem eu era e que eu precisava conversar com ela, a menina me disse: “Eu até já sei o que deve ser”.

Ela, que crescera trocando as fraldas do irmão, já desconfiava há algum tempo da semelhança cada vez mais gritante entre o rapaz e o médico. Questionada, a mãe confirmou a paternidade. Chegou 2009 e todos sabiam, menos Alberto.

— Pois então. Eu sou a Rainha da Inglaterra da história — conta Alberto.

Os dois mostram afinidade no cardápio e na política

Com o irmão de volta a Porto Alegre, a irmã chegou à conclusão que era o momento de contar sobre a existência do pai biológico. No dia em que os dois se encontraram em um restaurante, não foi preciso mais do que algumas fotos de Winogron quando jovem para convencer o filho. O exame de DNA eles resolveram fazer apenas para acelerar o processo de paternidade na Justiça.

Winogron acredita em força do destino. Conta ter descoberto Alberto quando a filha mais velha já morava em Londres, em um momento em que sentia-se sozinho, sem ninguém “nem para carregar a alça do caixão”. Alberto, por sua vez, “ganhou uma terceira família”. Na quinta-feira à noite, ele divertia-se apresentando Winogron para uma assessora:

— Este aqui é o meu pai. Desde agora há pouco, ali pelas 16h.

Desde que finalmente se conheceram, pai e filho se encontram todas as segundas-feiras para jantar. Invariavelmente sushi, uma das afinidades que descobriram, além do gosto pelo bate-papo sobre grandes temas sociais, como segurança pública e política. Alberto ouve ainda as décadas de história para contar de Winogron, um orgulhoso ex-correspondente de guerra.

Apenas em um dos pontos pai e filho estão em lados completamente opostos. O médico brinca:

– Meu grande ressentimento é não ter levado ele ao Beira-Rio desde cedo. Não ter podido matriculá-lo ele na escolinha do Inter. Garanto que ele seria de outro time...

— Não. Acho que não seria, não — rebate Alberto.

Dois pais, tudo bem. Dois times já é demais.

ZERO HORA

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